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Victor Campanelli, o produtor conectado que usou a tecnologia para transformar a empresa da família

produtor conectado: Victor Campanelli

Entenda a importância da tecnologia e da gestão rigorosa na trajetória de Victor Campanelli, um produtor conectado que não tira o olho na inovação 

Por Romualdo Venâncio
Reportagem publicada originalmente na revista Plant Projetc

Enquanto dirige sua caminhonete rumo à colheita da lavoura de milho e descreve os sistemas de automação da fazenda, Victor Campanelli é atraído por algo do lado de fora do veículo. Ao perceber uma falha na fertirrigação de um campo a ser cultivado com cana, pede gentilmente uma pausa na conversa e interrompe também o trajeto. Entre chamadas por rádio e pelo celular, consegue falar com o responsável por aquele procedimento, se certifica de que serão feitas as devidas correções e, em seguida, retoma o curso e o bate-papo.

Esse olhar apurado para tudo o que acontece na propriedade e a peculiar agilidade nas tomadas de decisão estão entre seus diferenciais na direção da Agro-Pastoril Paschoal Campanelli S/A, empresa familiar com sede em Bebedouro (SP) que faturou R$ 250 milhões em 2016. “Aqui é tudo muito controlado”, afirma ele.

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Piloto credenciado pela Federação Internacional de Automobilismo e aficionado da tecnologia, quando não está levantando poeira nas estradas que cortam os 15 mil hectares de terras que o grupo administra no estado de São Paulo – divididos entre gado de corte, cana-de-açúcar e milho – Victor senta-se diante de um cockpit gerencial, que lhe dá informações e imagens em tempo real da produção em cada milímetro das propriedades.

Produção tecnificada

A parte mais relevante dos negócios da família está, no entanto, literalmente confinada na Fazenda Santa Rosa, no município de Altair (SP), a quase 100 quilômetros da matriz. Em apenas 25 hectares ele comanda uma máquina de produzir bois para corte em uma escala industrial e contínua. Dali saem para o abate em média 55 mil bois por ano, o que representa entre 60% e 65% de toda a receita do grupo. O modelo de produção, altamente tecnificado e com gestão rigorosa dos Campanelli, fez do confinamento do grupo uma referência nacional e de Victor Campanelli o TOP FARMER 2017 na Pecuária de Corte/Confinamento, da revista Plant Project.

“Quando uma empresa familiar é bem gerida, não tem pra ninguém”, afirma ele. Diretor-executivo do grupo, Victor exerce uma liderança natural nos negócios. Mas esse é um rótulo que faz questão de evitar. “Sou apenas mais um dente da engrenagem, acompanhado de muita gente”, afirma.

Poucas horas ao seu lado na fazenda são suficientes para ver que fala sério sobre a gestão compartilhada. “Temos uma administração familiar baseada em competência, o que nos dá uma força enorme”, comenta, acrescentando que essa sinergia também é essencial para o sucesso das atividades: “Cada uma começa onde a outra ainda não terminou”.

Nascido em uma família de produtores rurais, Victor é formado em administração de empresas pela Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) e fez carreira no setor de mercado futuro antes de entrar para o grupo. Aliás, nenhum representante dessa terceira geração dos Campanelli ingressou na diretoria da empresa sem antes acumular experiência profissional em outras companhias.

Conhecimento e tecnologia

Victor procura associar conhecimento, vivência e até paixões para alcançar os melhores resultados. É o caso da tecnologia, área que admira desde garoto e hoje é sua grande aliada no controle das operações da fazenda – lá, praticamente tudo é automatizado. Os caminhões que despejam ração nos cochos dos currais são praticamente autônomos.

Fazenda Santa Rosa, onde Campanelli cria gado confinado. Foto: Emiliano Capozoli

Fazenda Santa Rosa, onde Campanelli cria gado confinado. Foto: Emiliano Capozoli

Graças a identificadores eletrônicos instalados junto às cercas, eles percorrem as avenidas e, automaticamente, param no ponto preciso e abastecem conforme a prescrição para cada lote: se deve receber uma dieta de adaptação, crescimento ou terminação. O sistema garante que sejafornecido ao lote a ração certa, no momento correto e na quantidade adequada.

Apenas o investimento feito em equipamentos de agricultura de precisão chega a R$ 6 milhões. “Na área agrícola, todas as máquinas têm telemetriae piloto automático. Também trabalhamos com imagens aéreas e de satélite, que são utilizadas, por exemplo, para o planejamento e a análise qualitativa de plantio”, acrescenta. “Não pensamos duas vezes para investir nas opções que nos tragam algum benefício operacional ou financeiro.”

Boi gordo o ano todo 

O produto final do confinamento da Campanelli é um boi  jovem, com menos de 30 meses, pesando em torno de 20 arrobas. Todo o gado é negociado com expoentes industriais como JBS e Marfrig e tem como destino o Mercado Comum Europeu. “Por isso priorizamos acabamento de gordura, e não marmoreio”, observa Victor. A padronização dessa boiada comercial, predominantemente Nelore, com alto padrão de qualidade, começa com a originação.

“Esse é o ponto crítico de um confinamento, pois a compra do boi representa entre 70% e 75% do custo de produção. O restante é dieta e operação”, analisa. Já na compra dos animais que serão confinados e engordados o trabalho em equipe de toda a família é crucial. “Meu pai e meu tio certamente viram cada um dos bois que estão aqui”, afirma Victor.

Os animais são adquiridos de diversos fornecedores que, na maioria, trabalham quase que de forma exclusiva com a Campanelli. Metade do gado é comprada com 9 arrobas e passa por um período de quatro meses de recria em outra fazenda do grupo, em Araçatuba (SP), antes de entrar no confinamento.

Capacidade de produção

A outra parte já chega mais pesada, com 12 arrobas, e vai direto para a engorda. Com a capacidade estática de confinar 18,5 mil bois, a empresa consegue embarcar para os frigoríficos cerca de 5 mil animais em cada um dos 12 meses do ano. Ou seja, são mais de 1,5 mil cabeças toda semana.

Ao eliminar a sazonalidade no fornecimento de bois, a Campanelli conquistou uma posição privilegiada na hora de negociar, tanto que os contratos de venda são fechados anualmente, com base na cotação de mercado mais uma premiação. “De maneira geral, quando o pecuarista tem um lote de animais prontos para a venda é que ele liga para o frigorífico a fi m de saber o preço da arroba e como está a escala de abate.

Um negócio desse tamanho, com tantos recursos investidos e um alto risco financeiro, não permite trabalhar assim”, avalia Victor, que continua: “Confinamento não é para amadores, e o dinheiro no Brasil é muito caro. No final do  ano, a terceira casa depois da vírgula faz uma grande diferença”. Por essa razão é que ferramentas de mitigação de risco como hedge, compra de opção e venda futura são indispensáveis na rotina de negociações.

Tudo sob controle 

Chegar a esse patamar de barganha depende, entre outras coisas, do minucioso controle de todas as operações do confinamento e da atualização permanente do banco de dados. “A gente trabalha o tempo todo com estatísticas e consegue predizer o que vai acontecer dependendo do padrão do gado, do peso dos animais, dos dias de cocho”, diz Victor. Todos os bois têm o brinco com a numeração do Sistema de Identificação e Certificação de Bovinos e Bubalinos (Sisbov) e um brinco eletrônico para leitura por radiofrequência (RFID), o que assegura a rastreabilidade e facilita o manejo.

A principal unidade de negócio da empresa tem automação plena. “Todos os processos estão sob o guarda-chuva de uma ERP (enterprise resource planning), que gerencia cada operação”, destaca Victor. A amplitude e a exatidão das informações dessa pecuária de precisão permitem saber inclusive a rentabilidade por lote.

“No cockpit do Victor, o foco no detalhe da originação de insumos e de boi magro, a gestão à vista da produtividade e a venda do boi gordo fazem da Agro-pastoril Paschoal Campanelli um modelo a ser seguido”, afirma Leandro Attie Testa, diretor de Novos Canais de Originação da JBS. Seja da Santa Rosa, seja da matriz da empresa, Victor consegue acompanhar em detalhes todas essas operações, até mesmo a fábrica de rações, em vias de se transformar em um novo negócio para o grupo.

Dos computadores, saltam dados de gráficos e relatórios de desempenho, além de imagens captadas pelas diversas câmeras distribuídas pelas instalações. Ele chega a se divertir com a sofisticação e a qualidade dos equipamentos. De olho na tela, exibe os recursos à reportagem de PLANT. Da imagem aberta em um dos currais, aponta para um dos bois que mal aparece no meio da manada. Ao seu comando, a câmera vai “buscar” o animal, que, em segundos, é visto em close graças ao zoom de alta resolução. O mesmo sistema mostra a movimentação de caminhões e faz o monitoramento de segurança.

Inovador e estrategista 

Por conta de seu fascínio pela tecnologia, Victor também está sempre atento às novidades que chegam ao campo em diversas partes do mundo, mas sobretudo nos Estados Unidos. Foi lá que conheceu um sistema de silagem chamado snaplage, feito com a espiga do milho, com palha e tudo. Além de ser um insumo com alto nível de energia e fi bra de ótima qualidade, o ciclo produtivo – do plantio à colheita – fi ca entre 110 e 115 dias, prazo ideal para a integração das atividades.

O milho da Campanelli, que representa 5% dos negócios e serve exclusivamente para alimentar o gado, ocupa 2,5 mil hectares em áreas de renovação dos canaviais. O ponto é que a safra da cana, segundo Victor, começa em março/ abril e vai até outubro/novembro. O ciclo do milho precisa se encaixar nesse intervalo de tempo em que a terra está sendo preparada para o novo plantio da cana.

Conexão estratégica

Já havia um diferencial por conta da silagem de grão úmido, sistema que apresenta um ciclo de 120 dias, inferior ao do milho comum seco, que gira em torno de 145 a 150 dias. Agora, as duas opções se complementam.

Os benefícios vão além. “Quando você colhe a silagem de toda a planta, o solo fica sem cobertura. Por estarmos em uma região com terras de baixa fertilidade, faz todo sentido deixar a palhada no chão, o que acontece com o snaplage”, explica Victor. “Há uma reciclagem de nutrientes do solo e forma-se uma proteção contra erosões”, acrescenta. Toda decisão tomada na empresa busca a sinergia entre as unidades de negócios, uma conexão estratégica que garante a melhor relação custo/benefício.

A importância da flexibilidade que vem dessa forma de gestão ficou muito clara no ano passado, quando a expectativa positiva em relação à pecuária brasileira foi frustrada por fatores como câmbio, retração nas exportações, queda no preço do boi e aumento dos custos de produção. “Tivemos seca nas safras de milho e o preço do insumo subiu muito”, cita Victor, que até já contava com essa elevação.

Perspectivas

“O que salvou nossa pátria foi termos conseguido enxergar uma alta considerável na safrinha e aproveitar a excelente oportunidade de comprar milho em 2015 a R$ 20 a saca.” Com estoque alto, não foi necessário comprar milho em 2016, o que reduziu os custos do confinamento. Pelo contrário, foi possível lucrar com a venda do grão a R$ 50 a saca.

Antes que a boa perspectiva para pecuária de corte no ano passado mudasse, Victor aproveitou a curva favorável nas cotações do boi no mercado futuro para travar os preços com hedge. “Isso tudo fez de 2016 um ano muito bom para nós, com avanço de faturamento e rentabilidade”, comemora. Segundo ele, só não foi um ano excepcional devido à crise econômica, com custo de capital muito alto.

“Para 2017 enxergo um ano até melhor que 2016 para a cana, pois continuamos tendo bons preços para o açúcar e cotações interessantes do etanol. Mas no caso do gado ainda dependemos de um fato novo para haver uma reação de preço. Como não estamos contando com isso, buscamos preservar a margem de retorno da atividade, pois é isso que paga as contas e não o preço do boi.”

Maturidade e meritocracia 

A história da família Campanelli no agronegócio começou com o avô de Victor, Paschoal Campanelli, que dá nome à empresa. Como vários imigrantes italianos, ele deixou seu país de origem fugindo da guerra e acabou trabalhando em fazendas de café aqui no Brasil. Para ser mais exato, em São Paulo.

Com o tempo, conseguiu suas próprias terras e investiu na cafeicultura. “Quando ele faleceu, em 1982, meu pai e meus tios decidiram unir forças e fundar a empresa, em vez de dividir as terras e se tornarem sitiantes”, lembra Victor, que atribui o sucesso do grupo a essa união da família.

Hoje a empresa é uma referência no agronegócio nacional, mas também atravessou momentos complicados. Nos anos 2000, por exemplo, uma das principais atividades do grupo era a citricultura e por causa de uma infestação de cancro cítrico foi preciso erradicar 300 mil pés de laranja. A cultura se tornou arriscada demais e acabou sendo substituída pela cana.

Administração

Essas decisões foram moldando e fortalecendo a administração atual. “Sou suspeito para falar a respeito, pois faço parte dessa história e sou fã de empresas familiares, mas acredito que se um grupo assim é bem gerido o sucesso é certo”, comenta Victor, que acrescenta: “Muitas companhias não têm essa maturidade e acabam morrendo. Nossa empresa ainda vai ter muita história para contar”.

O conceito de meritocracia que define os papéis de cada membro da família na direção da Campanelli também é aplicado aos funcionários. Victor procura ressaltar que cada integrante da equipe tem uma importância estratégica nas operações. “Às vezes alguém pode achar que a sua função é menos nobre do que a de outro profissional que tem mais visibilidade, mas não é assim”, afirma.

“Todo mundo aqui tem meritocracia ao extremo e é premiado pela qualidade de seu trabalho, assim ganhamos em eficiência.” Victor faz uma analogia com uma partida de futebol americano, esporte que adora, para exemplificar a relevância de cada colaborador: “Se você olhar bem, todos os jogadores participam da jogada, ainda que poucos realmente toquem a bola”.