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Como o Brasil pode se tornar uma potência em startups AgTech | Inovando na Universidade

O Brasil é um dos países com grande potencial agrícola. Entenda como o País pode se tornar protagonista em startups AgTech

Por Maikon Schiessl *

Considerado por muitos um dos países de maior potencial agrícola do mundo, dada sua extensão territorial, a vastidão de possibilidades agrícolas, das diversas possibilidades de clima e de seu solo propício para o cultivo, o Brasil hoje é uma grandes potências dentro do mercado agrícola internacional, mas ainda são poucas, em número, as startups voltadas especificamente ao setor.

Batizadas de startups de AgTech (tecnologia para a agricultura), as startups voltadas ao mercado agrícola tem um potencial imenso dentro do mercado brasileiro e, por isso, têm ganhado cada vez mais espaço, fazendo uso de tecnologias de ponta, como monitoramento por satélite, uso de sensores e Big Data.

Neste artigo falo um pouco de como o Brasil pode se tornar potência em startups de AgTech e mostro 4 obstáculos que dificultam o empreendedorismo nas universidades no Brasil, principalmente no setor agro. Mostro também o case do NEU (Núcleo de empreendedorismo da USP), que já ajudou mais de 50 startups a se desenvolverem dentro da universidade. Confira!

O futuro do Brasil como potência em startups de AgTech

É possível afirmar que o mundo das startups vive de ciclos de evolução, sendo que cada um dos setores econômicos é afetado, de forma maior ou menor, pelas inovações trazidas por esse segmento, que muitas vezes traz apostas certeiras e inovações que as grandes companhias não foram capazes de oferecer.

Depois de revolucionar o mercado eletrônico (Amazon, eBay, Mercado Livre), dos serviços de transporte (99Taxis, Uber) e de entregas de comida (iFood, PedidosJá), agora é a vez do setor do agronegócio. O mercado agrícola vem ganhando mais espaço nos últimos anos, com o aquecimento do setor de startups de AgTech e a maior adoção de ferramentas tecnológicas no cuidado e gerenciamento do campo.

Hoje existem aproximadamente 70 startups em operação voltadas ao setor de AgTech no Brasil, segundo dados da Associação Brasileira de Startups (ABStartups). É possível destacar que esse setor teve crescimento de 70% em 2016 com relação ao ano de 2015, sendo previsto que esse número triplique até o fim do ano de 2017 (estou torcendo muito por isso…).

Vale destacar também que grande parte das startups de AgTech no Brasil tem, entre seus membros, pessoas relacionadas ao setor da educação, ou seja, que tem relação direta com o mundo acadêmico e, por isso, é muito importante salientar a importância do ambiente universitário para o desenvolvimento das startups e, em especial, para aquelas do setor de AgTech.

Considero o ambiente acadêmico universitário um dos mais ricos para o setor de inovação e, por isso, procurei destacar os elementos mais importantes dentro deste processo de inovação. No entanto, também vale destacar os principais desafios que o empreendedor irá enfrentar dentro da universidade, conforme explico a seguir.

Inovando na universidade

Segundo dados coletados pelo 1o Censo AgTech Startups Brasil, trabalho resultado de uma parceria entre a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP) e o AgTech Garage , a proximidade com as universidades é um fator de grande importância dentro do setor de AgTeh, já que 53% delas contam com membros mestres ou doutores. No entanto, é fundamental também transportar esse conhecimento das universidades para o campo, aplicando na prática os projetos e conhecimentos desenvolvidos dentro dos campus. É tarefa das startups de AgTech, portanto, levar o conhecimento do campus para os campos.

Para que uma startup funcione de forma eficiente, não é somente o capital, o networking ou a experiência pessoal de seus membros que contam para o sucesso, já que o ambiente favorável para o desenvolvimento do pensamento empreendedor e o incentivo às metas e objetivos também é um elemento de grande importância.

Pela minha experiência pessoal e profissional dentro do universo acadêmico, acredito que existe sim espaço para o empreendedorismo dentro das universidades, mesmo que isso signifique enfrentar alguns desafios e problemas de ordem prática e funcional, que podem ser notados quando avaliamos a situação do empreendedorismo dentro desse ambiente.

Vale dizer que grandes inovações tiveram início dentro dos campus acadêmicos e isso, por si só, já é um forte sinal desse papel no empreendedorismo nacional e mundial, mas os resultados obtidos pelas startups criadas e desenvolvidas dentro das universidades também reforçam esse entendimento e demonstram a possibilidade real de que o Brasil se torne potência em startups de AgTech por meio da inovação dentro das universidades.

Dificuldades para a inovação no meio universitário

Como falei anteriormente, mesmo que o ambiente universitário ofereça grande espaço para aqueles que desejam empreender, existem algumas dificuldades a serem superadas, sendo que alguns destes pontos são elementos persistentes dentro desse segmento e que, de uma maneira geral, serão enfrentadas por aqueles que desejam empreender neste momento, sendo interessante conhecê-las de antemão.

Procurei listar as principais dificuldades enfrentadas por aqueles que desejam empreender dentro do mercado de startups, ou seja, por aqueles que buscam soluções e avanços em áreas distintas do tradicional “mercado de trabalho”, o que pode ser considerado por muitos uma atitude estranha e até mesmo arriscada, mas que tem se provado cada vez mais acertada e eficiente. Confira:

Obstáculo 1 – Foco dos estudos no mercado de trabalho

Uma das principais dificuldades enfrentadas por aqueles que desejam empreender e que constroem seus projetos dentro do ambiente universitário é o foco dos estudos, desenvolvido com objetivo de preparar seus alunos para o mercado de trabalho, um caminho relativamente comum e previsível.

É bastante comum, inclusive, que os alunos acreditem que o empreendedorismo não faz parte das possibilidades que sua área lhe oferece, ou seja, que não há carreira disponível para ele dentro do empreendedorismo, o que pode fazer com que grandes profissionais desistam de seus projetos ambiciosos e de futuro.

Em geral, apenas os cursos de negócios têm aulas voltadas ao empreendedorismo, como nos cursos de Gestão, de Administração e alguns cursos voltados ao Agronegócio, mas o panorama clássico é que os alunos não têm o preparo necessário dentro das universidades para desenvolver seus projetos de empreendedorismo.

Obstáculo 2 – Elementos culturais

Outra questão que deve ser considerada é a construção social e cultural desenvolvida com relação às universidades e que se refletem na gestão das startups e no pensamento de empreendedorismos dos jovens nas universidades.

Muitas pessoas ainda têm o pensamento de que as universidades são locais para preparação exclusiva para o mercado de trabalho tradicional ou mesmo que só é possível se desenvolver uma carreira de contornos mais tradicionais a partir da formação acadêmica, o que torna difícil expandir esses horizontes e desenvolver uma verdadeira cultura de empreendedorismo dentro do meio acadêmico.

É bastante comum que as pessoas acreditem que as universidades são caminhos para a formação profissional de uma maneira exclusiva, ou seja, que apenas um caminho pode ser trilhado dentro de sua formação, como é o caso dos concursos públicos.

O pensamento de que as universidades só preparam para os concursos ou para o mercado de trabalho tradicional, ainda muito forte na cultura brasileira, é uma das dificuldades mais relatadas pelos empreendedores e um dos obstáculos que devem ser vencidos caso se queira expandir o mercado de startups no país.

Obstáculo 3 –  Ensino conservador

Também vale destacar que muitas das grandes universidades do país ainda focam seus esforços e metodologia em sistemas de ensino defasados e de caráter conservador, baseados em um grande número de aulas teóricas, grande rigidez curricular e pouco espaço para o desenvolvimento do empreendedorismo e da participação do aluno dentro do processo de aprendizado de fato.

Apesar da evolução tecnológica e dos diversos métodos de ensino disponíveis, muitas universidades ainda mantém o velho padrão de aprendizado, onde os alunos anota o conteúdo apresentado pelo professor e faz avaliações, sendo que poucas vezes existe interação entre a metodologia de ensino e o aluno.

Também é válido salientar que são poucos os cursos e universidades que oferecem aulas de caráter prático ou mesmo incentivam a experimentação por parte de seus alunos, o que contribui para que a cultura do empreendedorismo não seja desenvolvida.

É importante que os alunos sejam estimulados a desenvolver atividades e aspectos práticos de sua profissão durante o processo de estudo universitário, visando aumentar os resultados obtidos e potencializar as iniciativas de empreendedorismo formadas dentro do ambiente acadêmico.

Obstáculo 4 – Baixa internacionalização

Outra questão que acaba por limitar o empreendedorismo na universidade é a baixa internacionalização, ou seja, o número ainda pequeno de instituições de ensino que contam com programas de intercâmbio de ensino e de pesquisa com países de forte inovação e empreendedorismo universitário.

Países de vanguarda na inovação e no empreendedorismo, como Coréia do Sul e Israel têm programas elaborados de intercâmbio voltados para o processo de inovação e também para o empreendedorismo e, por isso, são ótimas opções para as universidades, mas são poucas as que optam atualmente por esse tipo de parceria educacional.

Muitos especialistas apontam que o fortalecimento da internacionalização dentro das universidades é um elemento importante para fortalecer o empreendedorismo no Brasil, especialmente dentro do meio universitário, já que isso permite ao aluno aprender com outras culturas e desenvolver pensamento preparado para negociações internacionais.

Soluções para fomentar o empreendedorismo de startups de AgTech nas Universidades

Apesar dos obstáculos apresentados acima, é possível acreditar que existem soluções para fomentar o empreendedorismo de startups de AgTech nas universidades, sendo que muitas delas já adotam alguns métodos para fazer com que o cenário empreendedor seja fortalecido no meio acadêmico.

A atuação do Núcleo de Empreendedorismo da USP (NEU), por exemplo, é um claro sinal de como a universidade pode se fazer presente e fomentar o empreendedorismo dentro do campus, sendo que o setor de AgTech, por seu crescimento, é um dos mais interessantes para alunos empreendedores.

Além de oferecer aos alunos cursos que permitem obter ferramentas e técnicas para fomentar esse desenvolvimento, o Núcleo de Empreendedorismo da USP também conta com especialistas em empreendedorismo e faz com que seja possível expandir as fronteiras de conhecimento, possibilitando um crescimento veloz e acentuado da cena empreendedora universitária.

Pesquisas acadêmicas que se tornam soluções tecnológicas

Outra questão bastante interessante é notar que, muitas vezes, as pesquisas acadêmicas de polos de startup ou de incubadoras internas nas universidades acabam por se tornar soluções tecnológicas interessantes para o mercado, tendo em vista que, muitas vezes, as soluções encontradas pelas startups universitárias buscam soluções para problemas percebidos pelo mercado e trazem grandes vantagens.

Além disso, vale destacar que o ambiente de conhecimento das universidades também favorece interpretações mais modernas a respeito de problemas já existentes, seja para tornar as soluções mais eficazes ou mesmo para oferecer formas mais eficientes, ecologicamente seguras ou mesmo mais baratas do que as soluções já existentes no mercado.

Conclusão

É fácil perceber que, devido à importância das universidades para o cenário de empreendedorismo, é fundamental que sejam adotadas novas posturas e medidas para potencializar os resultados obtidos nesse meio, investindo em novas políticas e tecnologias, mas também alterando o pensamento tradicional e as formas de ensino.

O empreendedorismo é um dos pontos mais fortes da economia atual e, no Brasil e no mundo, se apresenta como uma das soluções mais atraentes para o agravamento da crise econômica e financeira e, por isso, faz-se importante termos essa mentalidade empreendedora como foco para o presente e também para o futuro.