Banner-Home / Perfil StartAgro /


Como se dá e como se pode medir a evolução tecnológica no agro?

Evolução tecnológica sempre foi algo fascinante aos olhos dos homens. Estamos a todo momento analisando, comparando e tentando demonstrar o quão mais tecnológicos nós somos em relação aos nossos antepassados.

Obviamente não é necessário nenhum estudo super sofisticado para percebermos que ao longo do tempo fomos avançando em técnicas e métodos. E é evidente que utilizamos equipamentos cada vez mais sofisticados para o nosso dia a dia. Entretanto, quando procuramos pontuar que um período é tecnologicamente mais avançado do que o outro ou que nossos antepassados eram menos tecnológicos do que a geração atual, é necessário considerar alguns fatores e tomar cuidado com os referenciais.

O que pretendo brevemente é demonstrar que essa é uma temática complexa e que requer sofisticadas análises de coletas de dados, se de fato queremos fazer uma análise comparativa sobre o grau de desenvolvimento tecnológico ao longo do tempo.

Avanços tecnológicos ao longo da história

Como relatei anteriormente, sem dúvida nenhuma estamos avançando tecnologicamente. Basta imaginar que a cerca de 100 anos atrás ou um pouco mais, talvez uns 130 anos, mal tínhamos um sistema de telefonia e hoje ele é quase que uma parte integrante de nosso corpo. Se pegarmos o exemplo da eletricidade para dar um outro exemplo, veremos uma situação semelhante, pois no mesmo período saímos de uma situação de não uso desta tecnologia, para uma dependência total. Claro, nenhuma delas é universal, mas considerando o alcance, elas quase são.

No agro, para simplificarmos a produção de alimentos, evoluímos ao longo do tempo de uma tração humana para uma tração animal e apenas entre os últimos 100 a 130 anos passamos para uma tração motora. O uso do trator ainda não é universal, tal como o uso da telefonia ou da eletricidade, mas está muito próximo disso. Não estamos considerando aqui outras limitações, como condições socioeconômicas ou técnicas para o uso de máquinas.

Tratando especificamente de grande culturas, para facilitar o entendimento, há cerca de 30 anos atrás, nossos tratores eram apenas máquinas geradoras de potência para geração de trabalho. Atualmente nossos tratores são máquinas coletoras de informação e não apenas produtoras de potência. Embora a produção de potência continue sendo sua principal razão de existir. O fato é que essas máquinas se tornaram verdadeiros hubs onde conectamos diferentes tipo de aparelhos e sensores para explorarmos melhor a sua potência e tornarmos o sistema mais eficiente.

Creio que não há dúvidas que tivemos um avanço considerável em termos de evolução tecnológica. Por outro lado, quando chegamos em qualquer propriedade rural hoje, não encontraremos todos esses avanços no campo e sendo utilizados de forma universal, ainda que dentro de uma mesma propriedade.

Então, mesmo considerando um produtor de alimentos modelo, veremos que há lacunas na adoção e utilização da tecnologia. Se avançarmos no nosso universo comparativo, veremos que isso se torna ainda mais críticos quando consideramos a população total de agricultores.

Partindo desse cenário bastante realístico, como esse atual produtor de alimentos poderia ser classificado com relação ao avanço tecnológico?

Os olhos mais atentos me chamariam a atenção, dizendo que seria necessário uma análise caso a caso.

Excelente! Esse é o ponto que queríamos chegar.

O desenvolvimento tecnológico tem um descompasso com a adoção da tecnologia e nos tornamos mais tecnológicos. Existe um grande abismo entre a criação de algo novo e sua universalização e isso se deve a vários fatores, como: disponibilidade da tecnologia, acessibilidade, custo da tecnologia, demanda, necessidade e ainda mais importante, a mudança de paradigma. A mudança de paradigma implica em se convencer de que as tecnologias do passado devem ser substituídas por novas tecnologias, pois essas trarão benefícios e ganhos significativos ao que era feito no passado. Sabemos que essa mudança não é simples e ainda mais complexa em alguns sistemas e sociedades.

Somos mais tecnológicos que os nossos avós

Essa é uma das grande mentiras que permeiam a humanidade. Tudo vai depender do referencial que estamos utilizando e mesmo assim, deve-se tomar muito cuidado com essa conclusão.

Como relatei anteriormente avanço tecnológico é diferente de sermos mais tecnológicos e soma-se a isso os fatores que relatei anteriormente sobre a adoção da tecnologia.

Imagine o seguinte cenário, seus avós eram produtores rurais e você é a descendência que continua o negócio, a partir dessa história você diria: meus avós eram menos tecnológicos do que eu, pois eles utilizavam a tração humana e animal e eu utilizo tratores.

Analisando esse cenário, algumas perguntas poderiam ser feitas como: Haviam tratores disponíveis para seus avós utilizarem? Se sim, esses equipamentos eram acessíveis em termos monetários? Talvez eles não utilizassem essa tecnologia por ela ainda ser uma novidade extremamente inacessível. Da mesma forma poderíamos voltar até você e perguntar: mas seus tratores seus autônomos? Com certeza a resposta seria não. Porém, vale lembrar que tratores autônomos já são uma realidade e alguns já estão disponíveis para compra. Certamente, você me criticaria e apontaria que o custos desses equipamentos são totalmente inviáveis de compra e adoção, ainda que seja possível toda as justificativas de vantagens de seu uso.

Vamos então dar um passo para o futuro e agora seus filhos já mais velhos farão a mesma análise comparativa. Muito possivelmente eles estarão em um momento em que os tratores autônomos serão uma realidade. Seria justos eles dizerem que seu pai era pouco desenvolvido tecnologicamente porque ele não utilizava um trator autônomo?

Se você estiver vivo até lá para se defender, você diria que é quase ofensiva a observação dos seus filhos e quase um desmérito. O retrato que você traria para seus filhos é que você de fato não tinha acesso a um trator autônomo, mas em contrapartida você utilizava do que havia de mais moderno e acessível em termos de tecnologia. Os seus avós fariam o mesmo com você.

O fato de uma tecnologia ser ou não adotada em um ponto definido do espaço, não garante uma análise justa sobre o grau de desenvolvimento tecnológico.

A análise sobre o nível de desenvolvimento tecnológico deve passar pela acessibilidade

Como podemos dizer então que um produtor rural é mais evoluído tecnologicamente do que outro?

Novamente essa é uma questão complexa, mas que de maneira simplória poderia ser considerada da seguinte forma: os produtores que estão sendo comparados tem o mesmo perfil socioeconômico? Se sim, temos condições de compara-los. Esses produtores tem o mesmo portfólio de produção? Se sim, podemos compara-los. Para esse perfil de produtores rurais quais são as tecnologias de ponta mais acessíveis disponíveis? Veja que a questão do acessível é fundamental nesse caso. Uma vez avaliada a disponibilidade das tecnologias, perguntaríamos se eles adotam ou não essas ferramentas de forma efetiva. Imaginem que de forma figurativa, um produtor adote a tecnologia e o outro não. Se as razões do produtor que não adota a tecnologia ser algo que lhe prende ao passado, muito provavelmente ele é menos tecnológico que seu colega.

Se trouxermos isso para nosso cotidianos, seria mais ou menos como imaginar duas pessoas de mesmo nível sócio econômico, porém uma utiliza sistemas de mensagens digitais para trocar informações com seus amigos e a outra escreve suas cartas a mão e as leva até o correio. Sem dúvida alguma aquela que utiliza o sistema digital é muito mais avançada tecnologicamente em relação a que utiliza o correio, já que ambas teriam as mesmas condições para adquirir a tecnologia disponível acessível.

Obviamente que não há nenhum desmérito em querer se utilizar dos correios para enviar uma carta. Porém, sendo essa a opção escolhida, precisamos estar confortáveis em sermos classificados como menos tecnológicos em relação aos demais.

Portanto, em se tratando de tecnologia devemos ter muito cuidado em querer dizer que somos mais ou menos evoluídos tecnologicamente. Reforçando o que já disse anteriormente, essa é uma análise muito complexa e sofisticada, que não deve ser baseada em relativismos, mesmo porque novidades tecnológicas de um tempo não necessariamente estão disponíveis às nossas mãos e nem por isso somos atrasados em relação ao que há de mais novo.

Quanto aos que ainda enviam cartas, não se preocupem, com certeza o seu nível de sofisticação e elegância não podem ser superados por nenhuma tecnologia.

Editado por:

Mateus Mondin

Professor Doutor / Departamento de Genética – ESALQ

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” – Universidade de São Paulo

Editor Chefe da StartAgro