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O fundador de uma startup de US$ 15 milhões explica por que os empreendedores deveriam pensar como agricultores

Tim Handorf é CEO e um dos fundadores da G2 Crowd, uma startup americana de softwares que vale US$ 15 milhões. No artigo abaixo, ele conta como sua formação no campo – ele vem de uma família de agricultores – o ajudou a se tornar um empresário bem-sucedido no ramo da tecnologia. E também mostra o que os empreendedores podem aprender com os agricultores.

O texto foi publicado originalmente no site Quartz. A publicação na StartAgro foi autorizada pelo autor.

Confira:

Por Tim Handorf, cofundador e CEO da G2 Crowd *

Meu caminho para me tornar o fundador de uma startup de tecnologia com mais de US$ 15 milhões em financiamento não foi nada convencional. Meus anos de formação foram gastos vivendo e trabalhando na propriedade de minha família em Gladbrook, no Iowa, uma cidade com uma população de aproximadamente mil habitantes.

Não frequentei universidade em nenhuma das costas, nem desenvolvi habilidades para programação no ensino médio ou aperfeiçoei o plano de negócios da minha empresa no conforto de uma aceleradora do Vale do Silício. Enquanto outros empreendedores sonhavam com plataformas de investidores, eu estava cuidando de gado e colhendo soja.

Apesar de ter trocado o setor agrícola pelo privado, a filosofia de vida da fazenda – e as lições aprendidas lá – nunca me deixaram. De uma duradoura ética de trabalho até a inclinação para o trabalho em equipe, as qualidades que têm ajudado os agricultores a prosperar se provaram também poderosas para startups e seus CEOs.

São esses valores, que ficaram impregnados em mim nos meus dias em Gladbrook, que se tornaram parte do meu sucesso como fundador de startup de tecnologia.

Arrancada, falha e recuperação

Durante as temporadas de plantio e colheita no campo, trabalhar 16 horas por dia ou mais é normal. Quando criança, era esperado que eu corresse – não andasse – do ponto A ao ponto B. Todos os empreendedores de tecnologia estão familiarizados com o poder da pressa; é a ética de trabalho das noites não dormidas que definem o sucesso de suas empresas.

Mas há o outro lado da moeda que aprendi no campo e que a maioria dos empreendedores não sabe: você precisa de tempo para se recuperar. Não importava o quão ocupado estávamos, meu pai sempre nos dava o domingo de folga para fazer nada e descansar. Separar tempo para recarregar as baterias é o único jeito de conseguir dar conta de uma agenda lotada.

Eficiência na gestão do tempo

Ao entrevistar possíveis funcionários para a fazenda, meu avô sempre encontrava uma desculpa para que eles dirigissem um carro para algum lugar. Enquanto andavam em direção ao veículo, ele prestava atenção para ver se o candidato tirava as chaves do bolso antes de chegar à porta do carro. Tanto em fazendas quanto em startups, o tempo é o recurso mais valioso, e meu avô precisava ter um time que fosse eficiente. As pessoas representam o maior custo de um negócio, especialmente quando a empresa está em fase de crescimento, e ter empregados que desperdiçam tempo significa excesso de gastos.

Acredite na sua visão

Um dos trabalhos mais complicados em que me envolvi na fazenda foi conduzir o gado de um pasto a outro. Controlar o tráfego e o fluxo de animais exige que o pequeno grupo de pessoas envolvida  nessa atividade se mantenha firme diante dos animais – uma tarefa estressante para um garoto de 14 anos que está diante de um animal de 500 kg.

O gado pode sentir que você tem medo, e uma vez isso me levou a uma falha que jamais esquecerei. Como não me mantive firme em minha posição frente ao rebanho, cerca de 20 cabeças de gado escaparam e nunca mais foram encontradas. Independentemente de ser um rebanho ou um negócio que você está começando, é preciso enxergar o objetivo maior, mesmo que o alvo a ser alcançado não esteja claro. Se o CEO não ficar firme diante das incertezas, as pessoas de que precisa para construir um negócio duradouro vão ficar com receio de continuar com ele.

Faça mais com menos

Você não se torna um agricultor pelo dinheiro: você faz porque ama. Consequentemente, agricultores são as pessoas mais econômicas e mais bem preparadas que você vai conhecer. Minha avó guardava tudo o que podia, de papel alumínio aos sacos plásticos que embalavam o pão de forma. Ela reutilizava esses materiais para mandar os almoços para os funcionários em campo. Meu pai também tinha essa consciência, e por isso todo o centavo que conseguia economizar era reinvestido na fazenda. Mantive essa forma de pensar nos últimos cinco anos sabendo que, quanto mais recursos eu conseguisse acumular, mais fácil seria para fazer um negócio se desenvolver.

Contratando o time

Para passar pelo crivo do meu avô, o candidato a uma vaga na fazenda também precisava mostrar habilidade para trabalhar em equipe e antecipar as necessidades de outros. Agricultura é um esforço em equipe. Quando você está dirigindo um trator e alguém está a metros e metros de distância em uma colhedora, é preciso estar em sintonia.

Essas são algumas das peculiaridades que empreendedores precisam identificar no processo de contratação. Numa empresa composta por apenas cinco ou dez pessoas, todos precisar estar alinhados e dispostos a realizar tarefas que não são exatamente aquelas para as quais a pessoa foi contratada – é preciso ser “pau pra todo obra”.

Tolerância ao risco

Do ponto de vista de negócios, a agricultura é uma das atividades mais ariscadas. Os agricultores plantam sabendo que praticamente tudo o que vai acontecer – padrões climáticos, doenças, sorte – está fora do seu controle. Mas ainda assim eles vão em frente. Como empreendedor, você tem de estar disposto a fazer o mesmo tipo de aposta. Se não quiser investir tempo e dinheiro nos ideais que o fascinam – independentemente de saber se eles vão resultar em um público consumidor-, você nunca saberá qual é o seu verdadeiro potencial.

Trabalhar junto é melhor do que sozinho

Nossa fazenda era um assunto de família. Toda ano plantávamos e colhíamos milho e criávamos frangos com as tias, tios e sobrinhos que viviam num raio de cinco quilômetros. Aprendi a apreciar como uma tarefa qualquer, como colher amoras ou milho (isso não exatamente a ideia de diversão para um adolescente), se tornava muito mais agradável quando realizada na companhia da família.

Até mesmo a complicada tarefa de limpar a granja podia se tornar razoável ao trabalhar com pessoas com quem eu me importava e gostava de estar junto. Começar um negócio novo significa trabalhar duro. Por isso a mente de um empreendedor está programada para querer fazer tudo sozinho, especialmente nos primeiros anos. Mas formar um grupo de colaboradores apaixonados pelos mesmos ideais vai evitar que você se desgaste em excesso e criará uma comunidade capaz de acelerar as conquistas.

Geralmente assumimos que o segredo para um empreendimento de sucesso está escondido nos livros de gestão, nas misturas dos espaços de coworking ou nos gigantes da tecnologia que se apresentam nos TED Talks. Mas acredito que há muita sabedoria em um dos primeiros modelos de empreendedorismo da história: o agricultor.